Capítulo dezenove prontinho para vocês.
Boa leitura!
CAPÍTULO
19:
A
PERDA
Ainda bem que fui com Ludimila, pois não fazia ideia do que comprar. Entramos em varias lojas, e compramos roupas, sapatos, brinquedos, guloseimas e muitas outras coisas, foi ai que me relembrei de uma coisa, onde Lisa dormiria?
- Meu Deus!
- O que foi Elise?
- Não sei onde Lisa vai dormir?
- Isso é um problema, por que no terreno não tem outro quarto a não ser o seu né.
- Exato, na parte superior tem mais dois quartos vagos, e agora Ludi?
- Calma tudo vai se resolver...
Ficamos ali paradas no meio do shopping a pensar no que fazer, até que nós nos olhamos e por incrível que pareça tivemos uma ideia simultânea:
- Ela pode ficar no mesmo quarto que eu.
- Era justamente isso o que iria sugerir Elise.
- Entao vamos comprar uma cama com cama auxiliar, tomara que tenham a pronta entrega.
- Pode deixar que eu já sei onde conseguir uma, vamos lá esquadrão.
Tem horas que acho que Ludimila parece uma criança, pois ela saiu empurrando a cadeira de rodas a toda velocidade, admito que adorei a experiência, mas ficou bizarros duas adultas correndo feito uma louca pelos corredores do shopping.
-
Chegamos em casa era metade da tarde, de acordo com Ludimila era tempo o suficiente de arrumar o quarto, bem por enquanto não tínhamos como pintar ou fazer uma grande reforma, mas ao menos ajeitamos tudo para ficar bem arrumadinho, forramos a cama com lençóis cor de rosa, e a enchemos com ursinhos de pelúcias e muitas outras gracinhas, arrumamos o guarda roupas com as novas roupas e acessórios.
Minha mãe viu tudo sendo modificado e já deduziu que Lisa viria para casa naquele dia, então ela se pôs a fazer biscoitos caseiros, assou um bolo, fez doce de banana e muitas outras guloseimas.
Tenho que falar, minha mãe é uma deusa dos doces, por que ela sabe fazer cada doce maravilhoso. Já Caio estava completamente um tio babão, ele estava todo afobado, arrumando o sofá, trouxe o vídeo game de seu quarto e instalou na sala, comprou refrigerantes e pipoca de micro ondas para pode se divertir com Lisa.
Fofo da parte dele já se programar com a minha pequena Lisa, o meu maior problema seria Caique, ele viu toda a movimentação e já estava com uma careta, era notável a sua desaprovação, mas não deixaria que o mau humor dele contagiasse a alegria de casa:
- Pelo visto a fedelha virá mesmo pra cá.
- Se você chamar novamente a minha Lia de fedelha eu juro que não vai ser só um copo que vai voar desta vez.
- Não duvido muito disso, eu vou ficar no meu quarto, não me incomodem e não deixem essa menina chegar perto do meu quarto, a é lembrei que ela não pode subir escadas.
A gargalha de Caique me irritou mais do que o deboche, senão fosse por Ludimila que estava ali sorrindo dando me apoio, eu já teria arrebentado a cara dele, mas como eu disse não deixaria nada me abater, pois era chegado a hora de buscar a Lisa, ai que emoção.
-
Chegamos ao bairro onde Lisa morava já estava começando a escurecer, e tenho que dizer que o lugar era horrível, a rua era toda irregular e não asfaltada, com certeza Lisa não saia muito para brincar ali, já que para um cadeirante era praticamente impossível seguir livremente por ali.
- É aqui a casa da vizinha Elise.
Ludimila teve o maior cuidado ao parar o carro e me ajudar a seguir para frente da casa, o portão era de madeira, mas ao menos o terreno da cara era nivelado, então consegui seguir com cadeira de rodas sem problema. Batemos palmas já que não vimos nenhuma campainha, e logo surgiu uma mulher com cara fechada, tinha os cabelos todos desarrumados e pele queimada pelo sol, ela nos encarou em desaprovação, cheguei a temer que tipo de pessoa ela seria, até que vi ao longe Lisa se aproximar sorrindo:
- Tia Elise e a tia Ludi...
- Oi meu anjo, como você esta?
Foi nesse momento que a mulher sorriu aliviada, acho que ela temia ser alguém de órgãos públicos querendo buscar a Lisa:
- Por que não disseram ser logo vocês, eu pensei que era do orfanato.
- Desculpa senhora, mas é que não sabíamos como nos apresentar.
- Ainda bem que a Lisa gritou nossos nomes né Elise.
- Pois é.
- Entrem senhoras, a casa é humilde, mas cabe todo mundo.
Entramos na pequena casa, e vimos o quanto Lisa estava sendo bem cuidada, a garota estava limpa e carregava uma boneca nas mãos, parecia que havia acabado de jantar, pois deu para sentir um ar quente vindo da casa que era bem pequena. Pamela que era a senhora ao qual cuidava de Lisa disse que o conselho tutelar apareceu duas vezes, mas que graças a guarda provisória eles não levaram a minha pequena:
- Graça a Deus a senhora teve um bom coração e vai acolher a Lisa.
- Não agradeça a mim dona Pamela, foi Lisa quem roubou meu coração, e te prometo que vou cuidar muito bem dela, e sinta-se a vontade para ir visita-la viu.
- Adoraria mesmo ir algumas vezes vê-la, sabe eu não posso ter filhos, e cuidar de Lisa me fez lembrar dessa minha infelicidade.
Ai gente por que ela teve que falar aquilo? Eu quase começo a chorar, me senti mal por tirar Lisa dela, afinal dona Pamela estava cuidando bem da minha pequena:
- Mas sabe dona Elise, eu sei que Lisa vai ter um futuro melhor junto da senhora.
- Te prometo dona Pamela, farei o melhor por ela.
- Bom a conversa esta boa, mas esta na hora de irmos né Elise, vou ajeitar o carro para colocar você e Lisa.
Assenti com a cabeça, e observei Pamela entregar duas sacolas plásticas com os pertences de Lisa:
- Obedeça a dona Elise, ela vai cuidar de você.
- Eu vou obedecer tia, eu prometo vir visita-la.
- Ah menina, sentirei sua falta.
Me emocionei com a despedida, Pamela abraçou Lisa tão forte que eu me senti mal por um momento, mas ambas sabiam que aquilo era para o bem da minha pequena.
Chegamos ao portão e Lisa estava ao meu lado, assim que íamos seguir para a rua, aparece uma mulher, alta, magra e com os cabelos presos, eu estranhei, pois a mulher estava ali parada da nossa frente, com os olhos fundos e uma expressão vazia:
- Tatiana?
- Ola Pamela.
- Ma... Mãe?
Senti o mundo ruir, aquela ali era a mãe de Lisa, não consegui acreditar no que acabou de acontecer, isso só poderia ser obra do destino.
-
- Para onde vocês estão levando a minha filha?
A pergunta soou mais com uma acusação, Tatiana encarava a todos de forma ameaçadora, exceto a pequena Lisa que estava radianta ao encontrar a mãe, também a quantos anos a menina não sabia do paradeiro dela?
- Estava levando Lisa para minha casa?
- E por quê você esta levando a minha filha?
- Por que... Ela não tinha mais ninguém que cuidasse dela.
Tatiana me encarou, tentei manter o olhar, mas vacilei, me senti ameaçada, assustada e com medo, muito medo por sinal.
- O que esta havendo aqui?
Graças a Deus Ludimila chegou, se alguém poderia realmente nos ajudar nessa situação, tenho certeza de que seria a Ludi:
- Que bom que você chegou amiga, essa é a mãe de Lisa.
- Nossa, que coincidência boa, justamente quando íamos procurar pela senhora, como tem passado?
Às vezes Ludimila é ingênua, muito ingênua, pois estendeu a mão sorrindo para a mulher que apenas a menosprezou e continuou a olha-la de cara feia:
- Quero saber por que essa mulher quebrada tava levando minha filha.
Mulher quebrada? Como ela ousa falar assim de mim?
- Primeiramente senhora... Qual o nome da senhora?
- Tatiana, me chamo Tatiana.
- Pois bem senhora Tatiana, minha amiga Elise, não é uma mulher quebrada, ela é uma pessoa inteira, normal, e muito gentil, então por favor, modere o seu linguajar, já que estamos aqui apenas pelo bem de Lisa.
- A é? E o que você querem fazer de bom para minha filha?
- Queremos dar o melhor a ela, quando a sua mãe faleceu, eu prometi cuidar de Lisa, vou dar tudo o que ela precisa, estudo, um lar, uma profissão.
- Até mais que isso né Elise, daremos o amor que ela tanto sente falta, a atenção para que a encoraje a derrubar seus medos, nós seremos a família que ela tanto queira ter.
- E você acha que eu vou deixar minha filha com um casal de sapatão?
Ah não, agora foi demais, me xingou de mulher quebrada e agora de lésbica, quem essa Tatiana pensa que é?
- Escuta aqui Tati...
- Espere Elise, deixa que eu cuido desse assunto.
Essa foi a segunda vez em que vi Ludimila séria, e posso garantir que não foi nada agradável vê-la daquele jeito:
- Senhora Tatiana, primeiramente a opção sexual é algo que não dever visto com discriminação e sim como liberdade de escolha, ser lésbica ou gay, não faz de ninguém melhor ou pior, afinal todos somos humanos, temos nossos sonhos, vontades e desejos. Em segundo lugar, eu e Elise não somos um casal, somos amigas e diretoras de uma ONG que auxilia pessoas com deficiência física e motora, graças a nossa ajuda, sua filha tem progredido muito na sua deficiência que é de total responsabilidade sua.
- Minha?
- Sim sua, ou a senhora acha que usar droga na gestação, faz um feto crescer forte e saudável?
A expressão de Tatiana se tornou perigosa, ela já estava fechando as mãos, e por um momento eu pensei que ela atacaria Ludimila, mas na guerra das expressões, eu garanto que a Ludi venceu de longe:
- Bem já que ficou claro que em hipótese alguma vamos fazer mal a sua filha, e que independente de sermos lésbicas ou heteros, nós queremos apenas o melhor para Lisa, então por favor nos deixe leva-la.
- Não.
Aquilo foi direto demais, não acredito que cheguei tão longe para ser barrada por aquela mulher?
- E por que não?
- Por que Lisa vai ficar comigo,eu vou cuidar da minha filha.
- Escute Tatiana, Elise vai dar o melhor para sua filha.
- O melhor para minha filha é ficar comigo e com o pai dela, e como eu voltei não tem porque deixar minha filha em mãos estranhas.
- Mas, Tatiana, por favor, deixe-me cuidar de Lisa.
- Eu já falei que não, agora venha aqui Lisa, vamos para casa, a mamãe vai cuidar de você.
Eu tentei protestar, mas Ludimila pousou a mão sobre o meu ombro, infelizmente não poderíamos fazer nada, se ao menos nós já estivéssemos em casa, eu ainda teria tempo para poder usarmos a lei a nosso favor, mas infelizmente isso não aconteceu, eu havia perdido Lisa, e não foi só isso o que perdi, pois não senti mais nada dentro de mim, eu me senti vazia, fria e oca por dentro.
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