Bom dia pessoal, mais um capítulo para vocês.
Mas antes um comunicado importante, nesse final de semana não teremos capítulos postados, porém na segunda-feira trarei dois capítulos inéditos para vocês.
Então boa leitura a todos e um excelente final de semana.
CAPÍTULO
8:
A
PROPOSTA DE MUDAR
Tentei manter a calma, mas estava difícil, Ludimila e Heitor me encaravam intensamente, cheguei ate a me sentir envergonhada, mas não poderia abaixar a cabeça não naquele momento.
Devolvi o olhar da mesma forma, bem pelo menos eu acho que foi da mesma forma, entrelacei as mãos e finalmente quebrei o silencio:
- Que tipo de proposta vocês querem me fazer?
- Bem Elise, quando você disse ontem que queria conhecer a nossa ONG eu fiquei muito surpresa.
- Pensei que você tinha ficado radiante, até chegou a fazer a dança do saci.
- Aquele é o meu jeito de ficar surpresa.
Se aquilo era um jeito de ficar surpresa, eu não queria ver o dia em que ela ficaria realmente radiante.
- Mas isso não vem ao caso agora Elise, voltando ao assunto, quando você disse que queria conhecer a ONG eu entrei em contato com Heitor no mesmo momento.
Então ela tem o telefone dele, os dois se falam fora daqui, será que já tiveram um caso? Ai que loucura nós estamos falando sobre a ONG, por que eu tenho que pensar tanta besteira?
- E sobre o que vocês conversaram Ludi?
- Sobre você minha cara.
A voz de Heitor era suave e gentil, e ele me olhava fixamente, tive que desviar o olhar, pois não sabia como encara-lo, ai que constrangedor, eu jamais pensei viver esse tipo de situação na minha vida. Sacudi a cabeça para tentar me concentrar na conversa, olhei para Ludimila e disse:
- O que vocês falaram sobre mim?
- Eu falei super bem de você, fique despreocupada.
- Ludimila, não foi sobre isso que eu quis dizer, eu quero saber sobre o real motivo de vocês terem falado sobre mim.
- Fora o quão bem eu falei de você, nós discutimos sobre um possível acordo entre nós e você.
Desta vez tive que encarar o Heitor, que tipo de acordo aqueles dois pensariam comigo? Será que tinha a ver com a minha real situação?
- Então digam logo que tipo de acordo é esse.
- Queremos que você faça parte da administração da nossa ONG.
Fiquei mais que surpresa, eu não tenho uma palavra para descrever aquilo, eu ajudando uma ONG, mas como eu poderia fazer isso? Estou começando a trilhar por um novo caminho, do qual eu não sei se dará certo.
O mais engraçado foi a minha reação, eu cai na gargalhada, não sabia por que, mas me deu uma vontade louca de rir, acho que os dois pensaram que eu havia surtado, pois me encaram com as sobrancelhas franzidas:
- Você esta bem amiga?
- Ai... Desculpa, mas eu não sei por que pensaram nisso, por que justamente eu seria alguém importante para essa ONG.
- Por que você é destemida Elise. – Ludimila se levantou da cadeira e começo a caminha em minha direção. – É corajosa, tem bom coração, sabe o que quer, tem todo o potencial necessário para ser uma líder, e a sua ajuda, só nos beneficiária, por favor, aceite o nosso acordo.
Fiquei muda, jamais pensei que poderia ser vista dessa forma, mas ainda estava em duvida, não sei como administrar uma ONG, eu sou uma publicitária, não uma administradora, apesar de todos aqueles elogios, eu já tinha minha resposta formada, mas foi quando Heitor se aproximou também e disse:
- Não diga nada ainda, venha eu vou te mostra uma coisa.
Eu sei qual é o propósito dele, mas ainda assim o segui, queria ver o que ele tinha para me mostrar.
-
Seguimos por um corredor amplo, ao fundo deu para ver que aquele caminho daria numa área externa e fomos justamente parar numa ala onde haviam crianças. Era um pátio enorme, com uma fonte de água cheia de peixinhos coloridos, um gramado sintético estava em volta da fonte. Tinha também brinquedos espalhados e alguns tutores ao lado, notei que as crianças eram especiais, contei cerca de vinte crianças, sendo a maior parte cadeirante e o restante com alguma deficiência motora ou até mental.
Era lindo ver a ingenuidade deles, cheguei a me lembrar da minha infância, onde nunca pude brincar com bonecas ou qualquer tipo de brinquedo, mas ainda assim me sentia feliz. Heitor ficou ao meu lado, ele também encarava as crianças, só que de uma forma mais terna, ele parecia até emocionado, toquei lhe o ombro, e lhe disse sorrindo:
- São tão inocentes né.
- Sim, elas veem o mundo sempre de forma diferenciada, mas isso pode acabar sabia?
- Por quê?
- Elise, nós não temos fundos para arcar com toda a ONG, essa seria uma ala destinada a crianças, queremos separar os adultos das crianças, afinal cada um tem uma necessidade diferente, e precisa de tratamento diferenciado.
- E aposto que isso custa muito para vocês.
- É um custo que não podemos arcar. Ludimila já tentou conseguir algum tipo de ajuda governamental, mas não conseguiu, a sua vinda para essa ONG seria a nossa salvação.
- Então o problema real é dinheiro? – Não pude esconder minha indignação, eles queriam o meu dinheiro.
- Não, queremos a sua ajuda na questão de conseguir lidar com tais problemas, eu cuido de toda a parte burocrática e jurídica dessa ONG, a Ludimila tenta fazer a parte de relações publicas, mas ela não tem tanta influencia assim, e você sendo publicitária poderia nos ajudar nessa questão.
Realmente eu tenho muita influencia e acho que nessa questão eu poderia ajudar, mas será que eu conseguiria? A duvida ficou estampada na minha testa, por que Heitor percebeu o meu debate interno:
- Está em duvida Elise?
- Não sei se sou capaz de tanto Heitor. – Resolvi me abrir com ele, não sei por que, mas aquele homem me inspirava confiança. – Fui sempre uma pessoa egoísta, eu não pensava nos outros, e vocês me pedem tanto, tenho medo de não ser capaz de atender a suas expectativas.
- O seu medo é normal, sair da sua zona de conforto é difícil, não quero pressiona-la, mas pense se você realmente quer mudar, por que não se arrisca? O máximo que pode acontecer é você não conseguir, afinal todos estamos sujeitos a falhas.
Ah que fofo, ele realmente sabe convencer uma pessoa, mas esse era um problema que não poderia haver falhas:
- Posso te dar uma resposta ao longo do dia?
- Então você vai ficar aqui com a gente até o fim do dia?
- Sim, assim posso conhecer melhor sobre esse lugar.
- Então eu lhe faço a devida companhia.
Heitor segurou a minha mão, senti meu rosto corar e meu coração acelerar, porém um lado meu pensou em Leonel e Jorge e eu pressenti que muitas emoções ainda estariam para acontecer.
-
Nunca pensei que me envolver com as crianças fosse tão divertido, cada uma tem um jeito especial de encarar o mundo, cada uma tem seu próprio sonho, e eu me simpatizei muito com uma garotinha de sete anos, seu nome é Monalisa, mas todos as chamam de Lisa, ela disse querer ser presidente da republica quando crescer:
- Tia, quando eu for grande vou ser presidente.
- E por que você quer ser presidente?
- Por que vou ser a primeira presidente deficiente da história, e vou ajudar a todas as crianças que tem problema.
Uma fofa, e vendo pelo lado sério do seu sonho, realmente, a ajuda governamental seria de extrema importância, eu tenho alguns contatos políticos que podem sim ajudar com isso, talvez até mais, poderíamos ampliar esse lugar, para trazer mais crianças, e talvez... Espera, eu não sei se quero isso, e se eu falhar, e se ninguém me ouvir, o que vai ser da Lisa e das outra crianças? Ai meu Deus que confusão.
- Elise? – Heitor estava ao meu lado, ele não saiu um minuto sequer dali. – Esta tudo bem?
- Só estou pensando ainda na minha resposta!
- E você ainda esta confusa né?
- Como você sabe?
- Eu sei muito bem ler as expressões das pessoas, venham vamos para o refeitório, hoje teremos um dos melhores pratos para almoçar.
- Tio o que vamos ter hoje para comer? – Perguntou Lisa sorridente, há que menina adorável, adoraria saber mais sobre ela.
- Como hoje temos uma convidada tão especial que é a Elise, vamos ter um prato também especial.
- EBA VAMOS COMER STROGONOFF... – Grita Lisa.
- Garotinha você estragou a surpresa.
Não pude deixar de rir, a ingenuidade de Lisa era cativante, e vê-la tão enérgica me deixa forte, não quero que aquele sorriso se apague, não posso permitir isso. Droga, por que sinto esse nó formando em minha garganta, e por que estou chorando agora, não posso ser fraca na frente deles, tenho que manter a postura:
- Tia por que você esta chorando?
- Lisa, ela esta chorando de felicidade, não esta percebendo.
Ah Heitor, você é realmente muito fofo, sorte da Ludi que sempre esta ao seu lado, aposto que ela sim é a mulher perfeita para você, bem vou me recompor, afinal tenho que esta bem para o almoço especial:
- Exatamente isso Lisa, a tia chorou de felicidade, por te conhecido você, uma garota tão linda e meiga.
- Ah para tia...
- Vamos lá então criançada, quem chegar por ultimo não ganha sobremesa.
Ao Heitor dizer aquilo, algumas das crianças saíram em disparadas, as tutoras ajudaram com as crianças que não podiam se locomover por terem paralisia infantil, e o restante seguiu ordenadamente, puxa que lugar organizado, nem a minha mesa do escritório era daquele jeito. Olho para Heitor, e ele estava sorrindo ao meu lado, fiquei meio sem graça, pois ficou apenas nós dois ali, ai se a Ludi nos ver aqui o que vai pensar hein:
- Eu sei por que você chorou.
Ah, ele queria falar sobre isso então:
- Desculpa se demonstrei a minha fraqueza.
- Ao contrário, você demonstrou muito mais força ao externar o que realmente estava sentido, não são todos que fazem isso.
Pela primeira vez não fiquei envergonhada, realmente Heitor sabia bem o que eu sentia:
- Vamos então para o almoço especial?
Assenti e nós seguimos juntos, lado a lado.
-
Nunca comi algo tão bom em toda a minha vida, o strogonoff estava uma delicia, nunca pensei que um prato tão simples fosse me agradar tanto, acho que a mudança esta me fazendo muito bem.
Fomos para o pátio central, eu, Heitor e Ludimila, eu observava a tudo e via como aquele lugar era especial, e o quanto ele era importante para cada um que ali frequentava, não só por ser um espaço reservado para deficientes, mas por ser um espaço de igualdade, ali não havia preconceito, todos eram tratados iguais, independente da sua deficiência.
Acho que ficar esse dia, nesta ONG me ajudou muito a ver como é esse mundo, e posso afirmar, eu realmente estou aprendendo o que é viver agora, o luxo é bom, mas não aquece um peito vazio.
Lisa se aproximou com a sua cadeira, ela estava bem sonolenta, eu percebi o quanto ela queria estar ao meu lado, acho que a minha ligação com ela ficou muito forte, pois eu também queria muito ficar ao seu lado, lhe pegar no colo e lhe fazer carinho, mas não sei se ela deixaria eu fazer isso, será que se eu pedir ela vai deixar?
- Tia me pega no colo.
Realmente essa menina era especial, com ajuda de Ludimila, a tiramos da cadeira e a coloquei no meu colo, Lisa encostou a cabeça no meu peito e fiquei a alisar seus cabelos, eram sedosos e cheiravam a tutti frutti, em minutos, a pequena menina caiu um sono profundo, senti o peso do seu sono, mas ainda continuei a acariciar sua cabeça.
Fiquei a admira-la, era tão linda, como isso pode acontecer a ela, uma menina tão doce e meiga, viver presa numa cadeira de rodas? Novamente o nó se forma na minha garganta, mas desta vez eu me segurei, não poderia chorar toda vez que me depara-se com uma criança deficiente:
- Lisa vive com a avó, numa favela da região. – Diz Ludimila me olhando. – A mãe esta presa por trafico de drogas e o pai é desconhecido, pela má gestação ela nasceu com uma rara deformidade na coluna, por isso não pode andar.
Ok depois de toda a história da garota, eu poderia me permitir chorar um pouco:
- Que história triste para um anjo tão lindo.
- A maioria das crianças daqui tem uma vida sofrida Elise, infelizmente nós somos o seu abrigo, muitas vão para a escola publica e sofrem opressão por outros colegas, tanto que a maioria prefere deixar a escola do que a frequenta-la.
Heitor tinha razão, se você é humilhado num lugar por ser especial, que motivos teríamos de frequentar:
- Somos a única opção deles Elise, eu não sei o vai ser dessas crianças sem a nossa ajuda.
Desta vez foi Ludimila quem caiu no choro, era uma situação complicada e triste, realmente cada um ali precisava de ajuda, e acho que cabia a mim fazer a diferença:
- Eu aceito!
- O quê? – Ludimila enxugou as lagrimas e me olhou espantada.
- Eu aceito o acordo de vocês, vou fazer o melhor por esse lugar, quero ajudar Lisa, e todos aqui, então eu aceito o acordo de vocês.
Era para ser algo comovente, mais lagrimas e abraços, essas coisas sabe, mas o que aconteceu foi Ludimila a dançar a famosa dança do saci e Heitor ficar rodando com a cadeira de rodas fazendo barulhos estranhos com a boca:
- O que pelo amor de Deus significa isso?
- É a nossa dança da comemoração Elise, eu faço a dança do saci e o Heitor a do pião doido.
Pião doido? Era só o que me faltava né:
- Venha Elise se junte a nós.
Neguei o convite de Heitor, uma coisa era eu aceitar o convite de administrar a ONG, outra coisa era eu começar a rodar quem nem uma louca no meio do pátio, posso ter mudado, mas ainda sim tinha amor próprio e senso de vergonha.
Enquanto eles dançavam eu fiquei a olhar Lisa, essa menina que me deu coragem e por ela eu vou conseguir ajuda necessária para essa onde:
- Pernas Que Te Quero, aguarde que Elise esta na área.