sexta-feira, 23 de setembro de 2016

O ASTRO REI - CAPITULO TRÊS

Bom dia meus queridos leitores, vamos começar a nossa sexta com mais um capítulo fresquinho para vocês.
Bora ler então. Capitulo três no ar!
Boa leitura a todos!

CAPÍTULO 3:
UMA CURA E UMA DOR



Foi difícil trabalhar aquele dia, eu não estava em condição nenhuma de ficar sorrindo com uma bandeja na mão, então supliquei para Luiz que me deixasse na cozinha:

- Mas Fabrício você não sabe cozinhar?

- Por favor Luiz, hoje não foi um bom dia para mim, eu não to no espírito para ficar sorrindo por ai.

- Fabrício estamos com pouco pessoal e você é um dos meus melhores garçom.

- Por favor Luiz... Só hoje.

Luiz me encarou e logo soltou um longo suspiro:

- Esta bem, mas você vai cuidar da louça suja e sem quebrar nenhuma peça viu.

- Obrigado Luiz, você é o melhor chefe que já tive.

Luiz sorriu e voltou sua atenção para outro garçom que estava quase derrubando a sua bandeja, fui em direção a cozinha onde coloquei um avental e fui direto para a pia, e me posicionei ao lado da dona Chica a cozinheira:

- O que faz aqui menino?

- Hoje não to bom para ficar servido esse povo.

- Menino o que você fez?

- Ah dona Chica, é uma história bem longa...

- A festa também é longa meu querido, vamos, você sabe que pode confiar em mim.

Dona Chica era uma doce velhinha com seus cinquenta e nove anos, mas tinha uma jovialidade invejável, da pra acreditar que ela faz aula de dança rítmica para melhorar a coordenação motora... Incrível:

- Problemas em casa.

- Com o seu pai?

- Não dona Chica, o problema sou eu mesmo.

- O que você fez?

- Abrir essa minha maldita boca e acabei ferido os sentimentos do meu pai... 

Eu não poderia falar sobre o estado do meu pai, ninguém ali sabia da sua doença, já estava farto das pessoas sentirem pena de mim:

- A menino, às vezes a gente fala umas coisas que não devia, mas aposto que seu pai nem se lembra mais do ocorrido.

Realmente, ele não se lembraria mesmo, mas eu sim me lembraria a todo instante:

- Eu deveria ter me calado.

- Mas não fez... Infelizmente uma palavra dita não pode ser apagada... Menino, pense da seguinte forma a vida é um desenhar sem borracha, se você erra não tem como apagar, mas pode contornar e refazer algo por cima.

Que ideologia mais simples de se exemplificar a vida, mas pelo menos me deixou menos tristonho:

- A senhora tem razão, não adianta ficar me lamentando, eu tenho que compensar minha falha.

- Exato... Agora vamos trabalhar que esse povo esta faminto.

Assenti para dona Chica, e enfiei minhas mãos na água e no sabão da pia.

-

Ao fim da tarde, todos foram liberados, a festa foi um sucesso, e eu me sentia renovado, ficar ao lado de dona Chica foi muito bom, ela era muito divertida.

Bom, mas agora eu tinha que voltar a minha realidade, e eu tinha que pedir desculpas para o meu pai, eu fui um idiota ao ter gritado com ele daquele jeito, poxa vida ele tem Alzihemer, eu tenho que ser mais paciente.

Cheguei ao portão de casa e senti um cala frio, acho que era medo e também vergonha, mas eu não voltaria atrás, entrei com tudo, se ousasse parar para pensar tenho certeza de que sairia correndo.

Abrir a porta e me deparei com a sala vazia, dali mesmo eu vi que na cozinha não tinha ninguém, a casa estava um silencio pavoroso... Onde estava meu pai e minha irmã?

Caminhei pelos cômodos até perceber um bilhete pregado na geladeira por um imã em formato de um pinguim... Minha mãe adorava esses imãs:

“Fabrício fomos até a casa da sua irmã, não se preocupe eu vou ficar por aqui essa noite, aproveite para se distrair ta bom. Eu te amo. Pai” 

Senti um nó na garganta, ele não estava com raiva de mim, tudo bem que pode ser por conta da doença, mas ainda sim, foi bom ler aquele recado... Ah pai, você é maravilhoso.

-

Liguei para minha irmã logo após ler o recado, era obvio que não poderia deixar isso assim, ela leva meu pai e me deixa um simples recado, não mesmo. Mas Vivis me explicou que ela só fez isso porque nosso pai pediu:

- Desde quando ele pede essas coisas?

- Vou lá saber Fabrício, ele disse que queria conhecer a minha casa.

- Huum... Ele vai dormir ai mesmo?

- Vai sim, deixa eu cuidar um pouco dele, você deve estar cansado, merece essa folga.

No fundo ela queria dizer estressado, não cansado, mas eu também sei que ela fez justamente isso por temer que eu fizesse aquela burrada novamente:

- Vivis, eu estou arrependido do que fiz hoje de manhã.

- Fabrício eu sei o quanto esta sendo difícil para você, afinal esta tendo que cuidar da casa e do pai sozinho, tudo isso deixaria qualquer um louco.

- Mas ainda sim foi errado o que eu fiz.

- Foi mesmo, mas olhe, ele não se lembra de nada de hoje de manhã, vamos passar uma borracha nisso tudo esta bem.

Uma borracha, que irônico, justamente hoje que ouvi da dona Chica que a vida é um desenhar sem borracha:

- Tudo bem, mas o que você precisar me ligue ta bom... Levou os remédios dele?

- Sim.

- Levou roupa também?

- Sim.

- Ah você também levou...

-SIIIIIIIIIIIIIIIIIIM... Fabrício eu sei cuidar do pai ta bom, fique sossegado, amanha pela manhã eu levo ele esta bem.

- Ta... 

Fiquei mudo, eu não sabia como pedir aquilo, mas queria escutar a voz dele:

- Você quer falar com o pai?

- Sim.

- Vou chamá-lo espere ai.

Fiquei escutando o barulho dos passos, e depois nada, será que ele havia realmente se esquecido do que aconteceu hoje pela manhã? E se ele não quisesse falar comigo? Eu no lugar dele nem olharia mais na minha cara, e se...

- Filho!

- Pai!

Como foi bom ouvir a voz do meu velhinho:

- Como o senhor esta?

- Estou bem Fabrício, escute eu vou passar a noite aqui ta bom, sua mãe não quis vir, acho que ela não aceita ainda a escolha da sua irmã.

Ri do comentário final, meu pai era tão ingênuo, quem sempre desaprovou a opção sexual de Vivis era ele, mas tudo bem, o importante era que ele estava bem:

- Tudo bem pai, eu falo com a mãe depois.

- Fico feliz meu filho.

- Pai...

- O que foi Fabrício?

Fiquei mudo, eu não sabia como dizer aquilo, era um misto de medo e constrangimento, mas fechei os olhos e disse de uma vez:

- Eu te amo pai.

- Ah eu também te amo filho, cuide de sua mãe esta bem, a gente se vê amanhã.

- Sim...

Ele desligou o telefone e eu fiquei ainda com o fone no gancho, eu não poderia pedir desculpas, ele não se lembrava do que aconteceu, mas pelo menos poderia dizer que o amava, era o mínimo a fazer para compensar a minha falha.

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