quarta-feira, 28 de setembro de 2016

O ASTRO REI - CAPÍTULO SEIS

Bom dia leitores, bora la acompanhar mais um capitulo diário dessa história sensacional?!
Como será que Fabrício está lidando com a perda? Bora ler para descobrir.

Boa leitura a todos"

CAPÍTULO 6:
A NOVA REALIDADE

                

Fui para casa assim que o enterro acabou, quando abrir a porta, senti algo desagradável, ali era tudo muito vazio, não tinha aquele brilho que antes existia...

Droga por que pai? Porque o senhor teve de ir? Justo quando eu fui um idiota e não consegui pagar pelo meu erro... Por que... Porque...

- POR QUEEEEEEEEEEEEEEEEE...

A mesa da sala foi arremessada direto contra a parede, nunca senti tanta raiva de mim mesmo, nunca me odiei tanto por estar vivo e meu pai morto, e o pior não havia um culpado... Havia sim, eu era o culpado, eu, somente eu...

Agora é o sofá que eu derrubo, eu precisava extravasar, eu tinha que liberar tudo aquilo, mesmo sabendo que a dor não iria diminuir, e sim ao contrário, ela só aumentaria.

Vou para a cozinha e derrubo a mesa, jogos as panelas no chão, quebro os pratos e copos, a minha ira não se acalma, eu quero acabar comigo, meus punhos estão inchados, estou agora socando a parede, logo vejo minha visão ficar vermelha, eu bati a cabeça com tudo na parede, eu estou tonto, e começo a deslizar pelo chão. Tudo ali lembra ele, meu pai, o velho palhaço, que sempre ria ao assistir o mesmo DVD todos os dias. Acho que começo a surtar pois escuto a sua voz:

- Filho não faça isso, ou você vai acordar a sua mãe.

Coloco minhas mãos sobre a cabeça, era ensurdecedor, não estava mais aguentando aquilo, a culpa me dilacera por dentro:

- Fabrício, venha se sentar ao meu lado...

Para por favor... Para...

- Filho... Eu te amo...

- PARAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA...

Finalmente acontece, o nó se desfaz, e após me segurar por horas, eu caio em prantos, agora eu posso chorar de verdade.

-

Cai no sono sem perceber e quando acordo, vejo que já é madrugada eu ainda estava na cozinha, com tudo revirado. Um caco de vidro estava enterrado na minha mão, o sangue na minha testa estava seco, minha boca amarga... Mas a dor não diminuiu, só que continuar a quebrar a casa não ia adiantar em nada, me levantei, arranquei o caco de vidro da minha mão, o sangue começou a vazar, fui direto para o banheiro, abrir a torneira e deixei minha mão ferida ali embaixo. O sangue logo parou e eu fiz uma pequena bandagem, estaquei a dor do ferimento, mas não a do meu coração.

Olhei-me no espelho pela primeira vez, eu estava horrível, todo descabelado, com a testa vermelha a roupa suja do meu próprio sangue, desviei o olhar do espelho, não tinha coragem de me encarar, eu ainda sentia a culpa... Droga, eu me odeio mais que tudo.

-

Fiquei acordado até o amanhecer, o que me serviu para arrumar a casa, bem eu não teria mais a mesa de centro na sala, teria que comprar mais pratos e copos, de resto eu estava bem. Fui para o meu quarto e fiquei por lá, não estava a fim de ver o dia ser dia.

E muito menos estava a fim de ver qualquer pessoa:

- Olaaaaaaaaaaaaaaaaaaa...

Por que raios quando você deseja alguma coisa, isso nunca acontece?

- Fabrício? Irmão... Sou eu a Vivis... Nossa por que tem tanto lixo assim aqui na lavanderia?

Ela não iria embora tão fácil assim, me levantei da cama e apareci na porta do quarto, peguei minha irmã fuçando no lixo, curiosa até demais:

- Dizem que se você quer saber da vida de alguém deve fuçar no lixo né.

- Ai que susto Fabrício...

- O que você quer aqui Vivian?

- Você nunca me chama de Vivian, vim ver se você esta bem?

- Ainda estou inteiro, agora já pode ir.

- Ei, vai com calma garotão...

- Eu estou calmo... Ainda.

- Escuta ai moleque quem você pensa que é para falar assim comigo?

Por instinto eu recuei, como Vivis era mais velha eu sempre a respeitei, então foi um ação normal a minha:

- Desculpa Vivis.

- É bom se desculpar mesmo, agora me diga o que houve aqui?

- Alguns pratos se quebraram.

- Alguns?

Vivis abra a porta do armário e o encontra vazio:

- Você quis dizer todos os pratos foram quebrados Fabrício?

Não podia encará-la, não ia conseguir mentir, e outra minha mão denunciou-me:

- O que houve com a sua mão?

- Nada.

- Fabrício, me deixe ver isso.

- Não.

- Fabrício, eu não vou falar novamente.

Eu odeio ser obediente, levantei a mão enfaixada, e Vivis retirou as bandagens, o corte havia infeccionado, e estava muito feio:

- O que realmente aconteceu aqui Fabrício?

Mordi meu lábio inferior, não ia conseguir mentir para a Vivis, mas também não queria que ela achasse que eu era um louco:

- Fabrício, me reponda.

- Eu quebrei os pratos.

- E...

- E quebrei os copos, a mesa de centro, derrubei o sofá, bati com a cabeça na parede e chorei.

Vivis cruzou os braços e estufou o peito, aquilo não era um bom sinal:

- E você achou mocinho que com isso ia ganhar o quê? Ou melhor, achou que fazendo tudo isso, você traria o pai de volta?

- Isso não o traria de volta jamais.

- Então por que fez isso?

- Por que eu sou o culpado do pai ter morrido... Eu gritei com ele, ele chorou, eu o machuquei e nem pude pedir perdão...

Voltei a chorar, não queria que a Vivis me visse naquele estado, isso só a preocuparia:

- Ah Fabrício...

Vivis me abraçou, não consigo mais controlar meus impulsos, e o choro vem, junto com soluços e uma única palavra que eu ouso dizer:

- Perdão... Per-dão...

-

Chorar me fez bem, eu estava mais lúcido, a Vivis ficou comigo e fez um chá, graças a Deus eu não encontrei a xícaras então eu pude tomar a bebida sem problema:

- Eca... Esta amargo.

- Ta nada, tome logo isso.

Tomei num gole só o chá, mas que tava amargo tava:

- Sente-se melhor Fabrício?

- Sim, estou mais lúcido.

- Muito bem, agora vamos falar sobre o seu pensamento idiota.

- Não era um pensamento idiota Vivis.

- Ah não? Você estava se culpando pela morte do pai e isso não é um pensamento idiota?

Fiquei calado, a Vivis até poderia ter razão, talvez eu não tivesse culpa diretamente, mas ainda sim sentia que falhei com meu pai:

- Vivis... É complicado...

- Escute Fabrício, a morte do pai não foi sua culpa, nem culpa de ninguém, foi uma fatalidade, um enfarte pode ocorrer com qualquer um.

- Mas...

- Nada de mas, Fabrício, você é tão novo e já sofreu tanto, só que agora você esta liberto, você pode viver...

- Minha vida acabou com a morte do pai Vivis.

- Não meu irmão querido, sua vida apenas estava começando, você cuido do pai por tanto tempo, ele agora esta descansando, você cuidou dele tão bem, agora comece a cuidar de você...

Vivis passou a mão pelo meu rosto, senti um nó formando na garganta, e logo as lagrimas vieram, mas agora não era de dor, eram de alegria e de saudades, a minha nova vida, a minha nova realidade, estava apenas começando:

- Obrigado Vivis.

- De nada meu irmão, eu vou cuidar de você hoje.

- Não precisa Vivis, eu vou ficar bem.

- Vai mesmo?

As palavras de Vivis foram ditas apontando para os armários vazios:

- Sim, prometo não quebrar mais nada.

- Esta bem, mas se precisar de mim, sabe onde me encontrar tá.

Vivis se levantou, beijou minha testa e saiu, fiquei ali parado por um tempo olhando para a casa, o lugar estava vazio, muito vazio, tudo ali me fazia lembrar do meu pai, mas agora a lembrança vinha de uma maneira menos agressiva, era saudades, não dor, era carinho não odeio, e pela primeira vez, eu senti que eu poderia gostar um pouco mais de mim.

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