Como será que Fabrício está lidando com a perda? Bora ler para descobrir.
Boa leitura a todos"
CAPÍTULO 6:
A NOVA REALIDADE
Fui para casa assim que o enterro acabou, quando abrir a porta, senti algo desagradável, ali era tudo muito vazio, não tinha aquele brilho que antes existia...
Droga por que pai? Porque o senhor teve de ir? Justo quando eu fui um idiota e não consegui pagar pelo meu erro... Por que... Porque...
- POR QUEEEEEEEEEEEEEEEEE...
A mesa da sala foi arremessada direto contra a parede, nunca senti tanta raiva de mim mesmo, nunca me odiei tanto por estar vivo e meu pai morto, e o pior não havia um culpado... Havia sim, eu era o culpado, eu, somente eu...
Agora é o sofá que eu derrubo, eu precisava extravasar, eu tinha que liberar tudo aquilo, mesmo sabendo que a dor não iria diminuir, e sim ao contrário, ela só aumentaria.
Vou para a cozinha e derrubo a mesa, jogos as panelas no chão, quebro os pratos e copos, a minha ira não se acalma, eu quero acabar comigo, meus punhos estão inchados, estou agora socando a parede, logo vejo minha visão ficar vermelha, eu bati a cabeça com tudo na parede, eu estou tonto, e começo a deslizar pelo chão. Tudo ali lembra ele, meu pai, o velho palhaço, que sempre ria ao assistir o mesmo DVD todos os dias. Acho que começo a surtar pois escuto a sua voz:
- Filho não faça isso, ou você vai acordar a sua mãe.
Coloco minhas mãos sobre a cabeça, era ensurdecedor, não estava mais aguentando aquilo, a culpa me dilacera por dentro:
- Fabrício, venha se sentar ao meu lado...
Para por favor... Para...
- Filho... Eu te amo...
- PARAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA...
Finalmente acontece, o nó se desfaz, e após me segurar por horas, eu caio em prantos, agora eu posso chorar de verdade.
-
Cai no sono sem perceber e quando acordo, vejo que já é madrugada eu ainda estava na cozinha, com tudo revirado. Um caco de vidro estava enterrado na minha mão, o sangue na minha testa estava seco, minha boca amarga... Mas a dor não diminuiu, só que continuar a quebrar a casa não ia adiantar em nada, me levantei, arranquei o caco de vidro da minha mão, o sangue começou a vazar, fui direto para o banheiro, abrir a torneira e deixei minha mão ferida ali embaixo. O sangue logo parou e eu fiz uma pequena bandagem, estaquei a dor do ferimento, mas não a do meu coração.
Olhei-me no espelho pela primeira vez, eu estava horrível, todo descabelado, com a testa vermelha a roupa suja do meu próprio sangue, desviei o olhar do espelho, não tinha coragem de me encarar, eu ainda sentia a culpa... Droga, eu me odeio mais que tudo.
-
Fiquei acordado até o amanhecer, o que me serviu para arrumar a casa, bem eu não teria mais a mesa de centro na sala, teria que comprar mais pratos e copos, de resto eu estava bem. Fui para o meu quarto e fiquei por lá, não estava a fim de ver o dia ser dia.
E muito menos estava a fim de ver qualquer pessoa:
- Olaaaaaaaaaaaaaaaaaaa...
Por que raios quando você deseja alguma coisa, isso nunca acontece?
- Fabrício? Irmão... Sou eu a Vivis... Nossa por que tem tanto lixo assim aqui na lavanderia?
Ela não iria embora tão fácil assim, me levantei da cama e apareci na porta do quarto, peguei minha irmã fuçando no lixo, curiosa até demais:
- Dizem que se você quer saber da vida de alguém deve fuçar no lixo né.
- Ai que susto Fabrício...
- O que você quer aqui Vivian?
- Você nunca me chama de Vivian, vim ver se você esta bem?
- Ainda estou inteiro, agora já pode ir.
- Ei, vai com calma garotão...
- Eu estou calmo... Ainda.
- Escuta ai moleque quem você pensa que é para falar assim comigo?
Por instinto eu recuei, como Vivis era mais velha eu sempre a respeitei, então foi um ação normal a minha:
- Desculpa Vivis.
- É bom se desculpar mesmo, agora me diga o que houve aqui?
- Alguns pratos se quebraram.
- Alguns?
Vivis abra a porta do armário e o encontra vazio:
- Você quis dizer todos os pratos foram quebrados Fabrício?
Não podia encará-la, não ia conseguir mentir, e outra minha mão denunciou-me:
- O que houve com a sua mão?
- Nada.
- Fabrício, me deixe ver isso.
- Não.
- Fabrício, eu não vou falar novamente.
Eu odeio ser obediente, levantei a mão enfaixada, e Vivis retirou as bandagens, o corte havia infeccionado, e estava muito feio:
- O que realmente aconteceu aqui Fabrício?
Mordi meu lábio inferior, não ia conseguir mentir para a Vivis, mas também não queria que ela achasse que eu era um louco:
- Fabrício, me reponda.
- Eu quebrei os pratos.
- E...
- E quebrei os copos, a mesa de centro, derrubei o sofá, bati com a cabeça na parede e chorei.
Vivis cruzou os braços e estufou o peito, aquilo não era um bom sinal:
- E você achou mocinho que com isso ia ganhar o quê? Ou melhor, achou que fazendo tudo isso, você traria o pai de volta?
- Isso não o traria de volta jamais.
- Então por que fez isso?
- Por que eu sou o culpado do pai ter morrido... Eu gritei com ele, ele chorou, eu o machuquei e nem pude pedir perdão...
Voltei a chorar, não queria que a Vivis me visse naquele estado, isso só a preocuparia:
- Ah Fabrício...
Vivis me abraçou, não consigo mais controlar meus impulsos, e o choro vem, junto com soluços e uma única palavra que eu ouso dizer:
- Perdão... Per-dão...
-
Chorar me fez bem, eu estava mais lúcido, a Vivis ficou comigo e fez um chá, graças a Deus eu não encontrei a xícaras então eu pude tomar a bebida sem problema:
- Eca... Esta amargo.
- Ta nada, tome logo isso.
Tomei num gole só o chá, mas que tava amargo tava:
- Sente-se melhor Fabrício?
- Sim, estou mais lúcido.
- Muito bem, agora vamos falar sobre o seu pensamento idiota.
- Não era um pensamento idiota Vivis.
- Ah não? Você estava se culpando pela morte do pai e isso não é um pensamento idiota?
Fiquei calado, a Vivis até poderia ter razão, talvez eu não tivesse culpa diretamente, mas ainda sim sentia que falhei com meu pai:
- Vivis... É complicado...
- Escute Fabrício, a morte do pai não foi sua culpa, nem culpa de ninguém, foi uma fatalidade, um enfarte pode ocorrer com qualquer um.
- Mas...
- Nada de mas, Fabrício, você é tão novo e já sofreu tanto, só que agora você esta liberto, você pode viver...
- Minha vida acabou com a morte do pai Vivis.
- Não meu irmão querido, sua vida apenas estava começando, você cuido do pai por tanto tempo, ele agora esta descansando, você cuidou dele tão bem, agora comece a cuidar de você...
Vivis passou a mão pelo meu rosto, senti um nó formando na garganta, e logo as lagrimas vieram, mas agora não era de dor, eram de alegria e de saudades, a minha nova vida, a minha nova realidade, estava apenas começando:
- Obrigado Vivis.
- De nada meu irmão, eu vou cuidar de você hoje.
- Não precisa Vivis, eu vou ficar bem.
- Vai mesmo?
As palavras de Vivis foram ditas apontando para os armários vazios:
- Sim, prometo não quebrar mais nada.
- Esta bem, mas se precisar de mim, sabe onde me encontrar tá.
Vivis se levantou, beijou minha testa e saiu, fiquei ali parado por um tempo olhando para a casa, o lugar estava vazio, muito vazio, tudo ali me fazia lembrar do meu pai, mas agora a lembrança vinha de uma maneira menos agressiva, era saudades, não dor, era carinho não odeio, e pela primeira vez, eu senti que eu poderia gostar um pouco mais de mim.
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