Boa Leitura!
CAPÍTULO
7:
O
TERCEIRO
Depois de muitas lagrimas e muitos abraços, finalmente saímos da sala de jantar. Eu levei Ludimila para o meu novo quarto, onde ela adorou o espaço e parabenizou minha mãe pela atitude e pela reforma feita no cômodo:
- Elise do céu, sua mãe tem o dom para decorar, esse seu quarto ficou ótimo.
- Eu também adorei ele, ficou tão fofo né.
- Ficou mais que fofo, você tem parabenizar sua mãe, ela fez um serviço que muitos design não fazem.
- Bem, mas eu te chamei aqui por outro motivo, não foi apenas para mostrar o meu quarto.
- Pois então diga o outro motivo que me chamou aqui!
- Enquanto almoçávamos eu pensei sobre a sua ONG, e gostaria de ajudar de alguma forma, ou até mesmo participar ativamente das reuniões ou sei lá o que vocês fazem nesse lugar.
- Ai Elise você não sabe o quanto eu fico feliz de ouvir isso. Bem eu vou te explicar tudo como funciona, vai ser maravilhoso, e quando você pretende começar essa sua inclusão na ONG?
- Se possível amanhã mesmo.
Eu estava determinada, não poderia voltar atrás, se Ludimila iria me ajudar eu tinha que retribuir esse ato no mesmo nível, sei que vai ser difícil, mas eu quero tentar, quero abraçar esse mundo. Bem antes mesmo de eu continuar ou ousar falar, Ludimila fez o favor de fazer a dança do saci e ainda aderiu um sacudir de braços, o que a deixou mais estranha do que já era:
- Ai Eliseeeeeeeeeeee, não acredito que você esta tão determinada, eu passo amanhã cedo para te chamar, vamos no meu carro esta bem.
- Claro que vai ser no seu carro né, já se esqueceu que não posso dirigir?
- Vou te contar uma coisa, sabia que mesmo você estando numa cadeira de rodas isso não te impossibilita de dirigir, hoje em dia já fizeram vários veículos adaptados para todos os tipos de deficiências físicas.
- Sério?
- Sério, não pense que só porque esta nessa condição que você não pode fazer muita coisa, é uma questão de adaptação.
- Tomara que eu consiga me adaptar...
- Claro que vai conseguir, o primeiro passo já foi dado, que é a aceitação, agora tudo vai depender da sua força de vontade.
Era incrível como Ludimila sabia dizer a coisa certa, na hora certa e no momento certo, estou amando essa nova amizade e o quanto ela é positiva na minha vida. Se era de força de vontade que precisava para mudar, eu teria a força de vontade necessária para isso.
-
Acordei bem cedo, me vesti com uma roupa simples, claro tive ajuda da minha mãe que teve todo o cuidado comigo, o que me restava era esperar agora por Ludimila, mas logo a minha espera acabou, pois a minha nova amiga era totalmente pontual, e no horário marcado a campainha foi tocada, coloquei minha bolsa no colo e me despedi rapidamente da minha mãe:
- Filha tem certeza de que quer ir sozinha?
- Eu não vou sozinha mãe, terei a Ludimila do meu lado, e também eu preciso ter essa confiança e começar a sair sem a senhora.
- Mas é que eu fico tão preocupada...
- Mãe eu estou com o celular, e prometo se eu quiser ir embora eu te ligo para a senhora ir me buscar, combinado?
- Combinado filha.
Puxa vida, esse lado super protetora da minha mãe estava demais, eu até posso imaginar que ver a sua única filha numa cadeira de rodas não seja fácil, mas ela tem que começar a entender que mesmo eu estando numa cadeira, isso não me torna uma invalida, assim como Ludimila disse, eu preciso ter a determinação para seguir com a minha vida normalmente, esse “pequeno” detalhe pelo qual estou passando, é apenas um desvio de rota, ao qual vai me modificar de dentro para fora.
Assim que cruzo a porta dou de cara com Ludimila sorrindo dentro de sua Doblô Prata, era um carro grande para uma única pessoa, enfim, cada um com seus gostos, fui me aproximando com a cadeira, até que Ludimila desceu do carro mais eufórica do que nunca e me abraçou bem forte:
- Bom dia Elise, como passou a noite?
- Muito bem, obrigada, e você como passo a sua?
- Foi uma maravilha amiga, está pronta para ir.
- Claro que estou.
- Bem, então vamos lá.
Estranhei a atitude de Ludimila ela me levou para de trás do carro, se aquilo foi uma piada eu não gostei, mas foi ai que tudo fez sentido, ela abriu as portas traseiras do carro e eu percebi que o espaço para os bancos e porta malas foi totalmente adaptado para cadeirantes, fiquei tão admirada que eu necessitava de exclamar a minha surpresa:
- Isso é totalmente demais!
- Gostou Elise? Esse é um carro adaptado para transportar cadeirantes, geralmente eu levo alguns cadeirantes embora então resolvi adaptar meu carro para isso, assim ninguém precisar ficar pulando da cadeira para o banco.
Era incrível como Ludimila pensava nas pessoas, ela modificou seu carro apenas para atender as necessidades alheias, acho que ajudar o próximo era algo muito importante para ela, mas por que querer ajudar tanto assim um próximo? Será que ela não tem amor próprio?
Bem isso eu iria descobrir, cedo ou tarde, tentaria fazer ela se abrir e me contar o que ela esconde, afinal ninguém é radiante como sol todos os dias.
Com ajuda da Ludi, entrei no carro e ela travou as rodas a dois suportes fixos no chão do carro e me envolveu num cinto de segurança especial, havia suportes onde pude me apoiar os braços e até mesmo colocar minha bolsa, quando Ludimila foi para o volante ela me olhou pelo retrovisor a fim de checar se estava tudo em ordem:
- Tudo certo por ai Elise?
- Sim, já podemos partir.
- Ai que emoção, então vamos Elise, ONG Pernas que te Quero ai vamos nós.
Finalmente partimos, mas eu não pude deixar de rir do nome da ONG, se aquilo era uma piada eu não sei, mas que ficou cômico a ficou.
-
Apesar do nome estranho o lugar da ONG era lindo, uma casa muito bem localizada, próximo a polos comerciais e com vias de acessos de todos os cantos, que até a maioria das linhas de ônibus que ali passavam eram adaptados para pessoas cadeirantes. Acredito eu que o lugar escolhido foi justamente aquele por conta da necessidade dos envolvidos na ONG.
Assim que chegamos, Ludimila estacionou o carro dentro da própria ONG, e me ajudou a sair do carro, o espaço externo do lugar era bonito também, havia um jardim com algumas orquídeas brancas, rosas, margaridas e copos de leite, o lugar também era cheio de rampas com corrimões, e nada de degraus, tudo para facilitar a vida dos que ali viviam.
Enquanto Ludimila me empurrava, ela me explicava sobre o lugar e as suas particularidades e necessidades:
- Aqui acolhemos pessoas deficientes Elise, damos o devido tratamento a elas sem custo algum, por que muitos aqui mal possuem alimentos em sua própria casa, nossa maior preocupação aqui é com a arrecadação que recebemos, pois vivemos de doações de terceiros, pense que para atender a todos aqui vai um belo dinheiro.
- Eu imagino Ludi, mas que tipo de atividades vocês fazem aqui?
- Acho melhor te mostrar do que te explicar.
Ela abre a porta principal e eu sigo para dentro do lugar, ali eu tenho outra surpresa, o lugar era amplo, tinha vários aparelhos fisioterápicos, rampas de acesso há sanitários, o lugar era bem ventilado e claro, deu para ver um jardim interno numa outra saída que daria para outro espaço, talvez fosse uma área de refeição, ou até mesmo dormitórios, e eu pude sentir toda a vibração positiva, era contagiante. Assim que entramos algumas crianças em suas cadeiras vieram para cima de nós, ou melhor, dizendo foram para cima de Ludimila.
As crianças gritavam pela atenção de Ludi, era notável o quanto todos ali gostavam dela, fiquei a sorrir ao ver o gesto dela com as crianças, ela tratava cada um de uma forma única, será que um dia alguém me amaria desse jeito?
Eu estava tão imersa que nem vi um cadeirante se aproximar, e ficar ao meu lado, olhei de relance, mas assim que enxerguei vi algo extraordinário, belo, lindo e perfeito:
- Ola, eu me chamo Heitor, você é nova por aqui?
-
Não sei o que esta acontecendo comigo, mas olhar para o Heitor era como ver um pedaço do céu, que homem lindo, apesar de ser cadeirante, ele tinha um porte físico bem másculo, os cabelos eram ruivos, e sua pele toda pintada de sardas e os olhos eram cor de mel, totalmente perfeito, enquanto eu o admirava, ele me observava confuso, afinal ele havia me feito uma pergunta e eu apenas estava paralisada:
- Moça você esta bem?
- Ahn... Ai desculpa, sim estou bem sim, e respondendo a sua pergunta, sim sou nova por aqui, me chamo Elise.
Estendi a minha mão e ele a apertou firmemente, como o toque dele era caloroso, percebi que estava rindo, mas rindo do quê? Acho que estou ficando louca viu, se toda vez que vir um cara bonito eu ficar assim, vou ter que me internar.
- Ah pelo visto já se encantou pelo Heitor.
Era só o que me faltava, deixei minha mãe em casa, mas trouxe uma miniatura dela, não era possível que a dona Luluzinha tinha uma legião de seguidoras iguais a elas espalhadas pelo mundo:
- Ludi, ele só esta sendo gentil comigo.
- Com esse ai tem que tomar cuidado, como vai Heitor?
- Você e essa sua língua hein Ludimila, eu estou bem e você?
Os dois se cumprimentaram com um forte abraço, não posso negar que senti um pouco de inveja, eu também queria um abraço dele, mas me contive, afinal acabei de chegar.
Por fim, seguimos pelo vasto lugar, Ludimila foi empurrando a cadeira e Heitor ao meu lado, logo pude perceber a ligação entre os dois, ambos eram os responsáveis por todo aquele lugar, Heitor cuidava da parte jurídica, ele era formado em direito e tinha um pequeno escritório próximo dali, a maior parte do tempo era dedicada a ONG, e o mais importante, ele era solteiro:
- Você acha Elise, esse pedaço de mau caminho solteiro, eu acho um desperdício.
Tenho que te falar que Ludimila era uma forma evoluída da minha mãe, mas não pude deixar de rir do comentário feito:
- Não diga isso Ludi, é capaz da nossa visitante achar que já tivemos um caso.
Isso não havia passado pela minha cabeça, mas a forma como eles se tratavam era de se esperar que eles sim já foram íntimos em algum momento, tentei não me abalar por tal pensamento, afinal eu era apenas um visitante.
Seguimos por um corredor que tava até uma sala onde havia duas mesas de mogno antigo, logo pude perceber que ali era a diretoria, ou seja a sala de Ludimila e Heitor, pois cada um seguiu para a sua mesa e puseram a me encarar, devolvi o olhar de forma confusa para eles, afinal não sabia o por que deles me levado ate aquela sala:
- Elise nós temos uma proposta para te fazer.
Essa foi a primeira vez que vi Ludimila séria, e tenho que falar, foi aterrorizante.
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