Bora lá ler então.
Boa leitura!
CAPITULO
5:
OLHOS
QUE ENCANTAM
Com muito esforço me deitei na cama, eu precisava começar a agir de forma independente, se a todo o momento eu tivesse que pedir ajuda, ai sim seria uma completa invalida, mas por hora eu apenas quis me deixar enterrar no sofrimento que sentia.
Aqueles traidores, como eu pude ser traída daquele jeito? Eu sempre fiz de tudo por Antony, eu até me via casada com ele, apesar da minha mãe nunca ter gostado dele, será que ela já desconfiava de que o crápula do Antony era um mau caráter?
Dizem que as mulheres possuem um sexto sentido, mas as mães devem ter um sétimo sentido quando se trata de proteger os filhos, bem o que isso importar agora? Eu não dei ouvidos a única pessoa que realmente se importa comigo, como fui idiota.
Sempre me achei esperta, mas agora vejo o quão burra fui, parece que tudo o que eu jamais pensei em ser estava acontecendo comigo, todas as fraquezas das quais sempre quis me afastar estão me rondando.
Enterro a cabeça no travesseiro e começo a chorar, eu queria destruir aquele meu eu fraco, mas não era tão simples... Por que Deus? Por que esta fazendo isso comigo? Sou uma pessoa tão má que precisei cair tanto?
Acho que estou ficando louca, nunca fui religiosa, por que agora estou pedindo ajuda a um Deus que me deixou ficar nesse estado? Se realmente esse Deus que muitos falam existisse, ele jamais me deixaria cair tanto, por que agora eu não sou nada, eu não consigo fazer nada. Isso é culpa de um Deus tirano, que me tirou a liberdade, me tirou a vida, me fez sentir traída, nada mais faz sentido para mim, será que esse Deus benevolente esta me punindo? Só pode ser afinal nunca o ajudei em nada.
Em meio a essa loucura do meu drama vivido, o telefone do criado mudo começa a tocar, eu me recomponho rapidamente, respiro fundo e atendo:
- Alô?
- Elise sou eu sua mãe maravilhosa.
- Oi mãe, o que foi?
- Nada só queria saber se esta tudo bem ai no seu quarto e também testar a ligação entre os telefones.
- Esta tudo uma maravilha mãe, o quarto esta lindo, e a cama é maravilhosa.
- Esta vendo filha, isso prova que você pode se sentir bem com o pouco, Deus esta te mostrando um novo caminho Elise, aceite-o meu anjo.
- Mãe por que a senhora esta falando em Deus?
- Sei lá, eu senti que você precisava ouvir isso.
Fico muda ao telefone, realmente as mães possuem um sétimo sentido sobre seus filhos, sem perceber eu sorrio e choro simultaneamente, somente aquela mulher sabia da minha dor, acho que descobrir o lado mais extraordinário dela:
- Ah mãe, a senhora é uma luz na minha vida.
- Ah Elise... Assim você me faz... Chorar... AAAAAHHHH!
- O que foi mãe?
- Borrei a maquiagem, filha se arrume que mais tarde irei leva-la a sua sessão de fisioterapia viu, desligando.
Ri da situação, realmente a minha mãe era o meu raio luz, me deitei na cama e senti a dor no meu peito diminuir, talvez esse fosse o momento de nascer uma nova Elise.
-
Segui para a fisioterapia com a minha mãe, tentei não ficar frustrada por ter que ir de taxi novamente, afinal eu não posso mais dirigir, então coloquei na minha cabeça que ao menos posso pagar um taxi, isso já era um luxo que muitos não poderiam ter, e para me distrair trouxe comigo um livro chamado O Vaso de Porcelana, é um livro espírita, nunca fui muito fã de livros desse gênero, mas resolvi arriscar a lê-lo da mesma forma, quem sabe me ajudaria a mudar toda a minha visão do mundo.
Claro que para tentar ler com a dona Luluzinha dentro do taxi era praticamente impossível, nunca pensei que ela fosse tão rápida em fazer amigos, literalmente eu não era parecida em nada com a minha mãe, que sempre foi uma mulher extrovertida e muito comunicativa. Posso até afirmar que ela já superou todo o passado triste que tivemos quando ela ainda era casada com meu pai, como a filha mais velha eu assistia a todo aquele sofrimento.
Meu pai nos maltratou muito, chegamos a ficar eu, minha mãe e meus irmãos ainda de colo trancados em casa, sem comida e sem água, já que ele fez questão de desligar o relógio de água sempre que saia, nós conseguíamos comer por conta de uma senhora muito gentil que era nossa vizinha, engraçado não consigo me lembrar do nome dessa senhora, mas eu adoraria poder vê-la um dia e agradecer por sempre ter nos ajudados.
Fora as surras que meu pai davam em nós pelo simples fato de chorarmos por fome, eu dou graças a Deus que meus irmão não se lembram dele, afinal a figura de pai que era para ser protetora e acolhedora na nossa vida era ao contrário.
Vivemos nesse tormento por quase dez anos da minha vida, mas minha mãe deve ter vivido mais, foi quando numa noite, esse homem que se denomina pai, voltou para casa bêbado e sujo, ele tinha perdido uma aposta e não tinha dinheiro, por isso foi espancado pelos apostadores. Revoltado pela situação que viveu, nós fomos usados como instrumento de tortura para eliminar as suas frustrações, acho que nunca apanhei tanto na minha vida, foram quase trinta cintadas que levei do lado da fivela, enquanto minha mãe estava amarrada numa cadeira e assistia a tudo, sinto uma raiva profunda dele desde esse dia, um homem covarde que bate na própria mulher e filhos pelo bel prazer, sem justificativa, sem um porque. E mesmo que tivesse um motivo, ele jamais deveria ter feito àquilo comigo.
Lembro-me que minha mãe gritava, e a cada grito ela a esbofeteava, o tormento só teve fim quando os vizinhos arrombaram a porta, e encontraram meu pai tentando me sufocar com as mãos em volta do meu pescoço, a partir daí eu tive um apagão na memória, e só me lembro de ter acordado na casa nossa vizinha, minha mãe com os olhos roxos ao meu lado me observando e meus irmãos dormindo calmamente, foi ai que decidi ser forte, jamais deixaria minha familiar passar por aquilo e o mais importante, jamais deixaria que aquele homem voltasse para nossas vidas.
-
Chegamos ao consultório do fisioterapeuta, era uma casa simples, mas acomodada para pessoas com necessidades especiais, pude sentir a diferença daquele lugar e da minha casa, ali tudo era acessível, já em casa era tudo bem difícil, talvez fosse necessário fazer uma reforma para atender a minha nova vida, bem vamos deixar isso para depois, minha mãe já estava falando com a recepcionista, que confirmou a minha presença na consulta, e logo me indicou para sala:
- Mãe pode ficar aqui, eu quero ir sozinha.
- Tem certeza filha, eu posso te acompanhar nessa primeira sessão.
Minha mãe é tão carinhosa, mas eu senti que precisava fazer isso sozinha, então segurei a sua mão e disse:
- Mãe a senhora já fez muito por mim, eu agora preciso encarar isso de frente, pode ficar tranquila.
Eu precisava falar aquilo, não diretamente para minha mãe, mas para mim, eu precisava encarar tudo aquilo, seguir em frente. A resposta que tive foi um beijo na minha bochecha direita e um sozinho sincero, ela havia entendido meus sentimentos, e sentou-se na poltrona e começou a folhear uma revista que estava na recepção.
Era hora de encarar o médico, comecei a empurrar as rodas até que a recepcionista abriu a porta e eu entrei, a sala era ampla, tinha uma maca, alguns aparelhos de ginástica bem diferente do normal, as paredes eram pintadas de azul, e do outro lado da mesa... UAAAAAAAAAAUUU, esse não pode ser o médico:
- Ola Elise, me chamo Jorge, sou o seu fisioterapeuta.
Deus me ajude, que médico que era esse? Tive vergonha de chama-lo de doutor, afinal ele aparentava ter a minha idade, tinha os cabelos negros, e os olhos castanhos, a pele era branca e seu sorriso era cativante, fiquei tão admirada com a beleza do médico que acho que paralisei, por que foi ele quem empurrou a cadeira para próximo da mesa:
- Todos sempre ficam em choque ao me ver, não se preocupe, sou novo mas não sou inexperiente.
Senti o aroma de seu hálito, era eucalipto estonteante, teria que me concentrar para não mergulhar mais e mais nele, que loucura, era a primeira que vez que o via, e me senti completamente perdida.
Chega de besteira Elise, você esta ali como paciente, e era isso que eu queria ser:
- Ola doutor, desculpa pela minha atitude, fui indelicada, e jamais o julgaria por ser novo, afinal eu sou publicitária e todos também ficam boquiaberto quando falo da minha empresa.
- Pelo visto sofremos da mesma forma, nossas profissões são conhecidas por pessoas mais velhas, mas estamos mostrando o quão os jovens também podem ser competentes mesmo em profissões mais qualificadas.
Senti seu olhar me penetrar por dentro, desviei o olhar para não ficar envergonhada, eu não sabia o que estava acontecendo, mas olhar para o doutro Jorge me fez lembrar de Leonel e do quanto ele havia sido gentil comigo.
- Podemos começar a consulta doutor.
Foi o melhor que consegui dizer, afinal não sei quanto tempo resistiria ao charmoso fisioterapeuta.
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