quarta-feira, 27 de julho de 2016

EU, TU, ELES - CAPÍTULO 6

Bom dia galera, vamos lá para mais um capítulo?
Boa Leitura a todos

CAPÍTULO 6:
UMA NOVA AMIZADE

              

De inicio Jorge me fez varias perguntas, acho que esse primeiro contato era mais para conhecer o paciente do que já para iniciar as sessões, foi divertido, eu me senti melhor. O triste foi quando acabou ele me cumprimentou com um aperto de mão e me levou para fora da sala, talvez esse foi um dos piores erros da minha vida, pois minha mãe o viu e soltou um longo assovio:

- Minha nossa eu também quero ser atendida por esse médico.

Depois desta frase, eu praticamente desejei ser abduzida por um buraco negro, ou melhor, queria que minha mãe fosse abduzida. 

Jorge sorriu com comentário, acho que ele já deve estar acostumado a esse tipo de situação, bem antes mesmo que minha mãe abrisse a boca eu já fui me despedindo do doutor e já marquei a próxima consulta para a próxima semana:

- Então doutor nos vemos na semana que vem.

- Até lá se cuide Elise.

Jorge termina a frase sorrindo, será que ele sabe o quanto o seu sorriso é lindo? Retribuo o gesto com o meu melhor sorriso, e me retiro do consultório com a minha mãe a sussurrar ao meu ouvido:

- Ele é tão bonito quanto o Leonel né filha.

Ignorei o comentário, afinal nunca mais veria o belo enfermeiro, e mesmo que o visse, ele era comprometido. Talvez até Jorge fosse comprometido, e também quem iria olhar para uma paralitica... Epa vamos para com isso, prometi aceitar minha nova condição, sei que é difícil esse caminho pelo qual quero trilhar, mas tenho certeza de que vou conseguir, e acho que sei bem por onde começar, entrando no taxi e eu penso em como tentar ser uma nova pessoa:

- Mãe eu preciso que me faça um favor!

- Pode pedir minha filha.

- Quero convidar Ludimila para almoçar em casa.

Aquilo pegou minha mãe de surpresa, nem ela esperava por isso, e nem eu também, afinal eu ainda não era a miss simpatia do condomínio, mas acho que precisava começar a me relacionar melhor com os vizinhos, e por que não começar com a minha vizinha?

O silencio da minha mãe deixou claro que eu tinha algo há conquistar: Confiança. Ela me olhou totalmente desconfiada, achando que eu iria fazer algo contra a nossa vizinha, mas logo eu falei as minhas reais intenções:

- Mãe, eu não vou fazer nada de mal contra a Ludimila, e sim quero me desculpar pela minha atitude de ontem, afinal eu não sou a personificação da educação com ela né.

- Tem certeza disso Elise? Você sempre a detestou.

- Tenho mãe, eu acho que sempre tive inveja dela, então que tal eu recomeçar a ver as coisas de outro modo, e eu preciso entender quem realmente eu sou.

Foi um bom começo, pois minha mãe aceitou chamar Ludimila para almoçar em casa, eu espero que ela aceite, pois se eu fosse ela, eu jamais aceitaria um convite vindo de mim mesma.

-

Assim que chegamos na frente do condomínio, demos de cara com a Ludimila, era o momento certo para fazer o pedido a ela, vou dizer que essa foi a situação mais difícil que vivi, eu praticamente a odiava. 

Mas ainda sim eu tinha que tentar, se mudar meu jeito era a lição que eu queria aprender eu iria fazer até o impossível para isso, encarei Ludimila que estava sorridente como sempre, me esforcei o máximo para não revirar os olhos, por que ela sempre estava sorrindo? O que há fazia tão feliz? 

Preciso parar de pensar nisso, ou não conseguirei cumprir com o meu propósito:

- Ola Ludimila!

- Como vai Elise? – Dava pra notar que até o seu tom de voz era cheio de brilho.

- Seguindo a vida.

- Que bom, vejo que você esta com uma fisionomia diferente, parece até mais reluzente.

Ata eu reluzente? Jamais né.

- Eu queria lhe fazer um pedido.

- Claro, no que eu puder ajudar, eu estarei à disposição.

- Gostaria muito que você fosse almoçar em casa hoje, sabe é uma forma de me desculpar com você pelo jeito que venho demonstrado, acho que não fui muito...

- Aaaaaaaaaahhh... Que tuuuuuuuuuuuuuuuudooooooooooo...

Ok eu não esperava por isso, Ludimila estava saltando com um pé só e girando feito uma louca, desta vez eu não tive como me segurar, revirei os olhos, e foi quando senti um abraço, isso era algo que eu jamais pensei receber de Ludimila, um abraço:

- Estou tão feliz pelo convite, sempre quis me aproximar de você, ser sua amiga, ai que realização... Acho que vou chorar...

- Menos ta bom, não precisa chorar ou... Fazer isso que você fez agora?

- Ah... A dança do saci.

Acho que minha expressão deixou bem claro que não conhecia esse tipo de dança, e que muito menos eu queria aprender essa dança:

- Exato, então eu te espero às treze horas?

- Pode contar comigo... Ai Elise estou tão feliz... Huuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu....

Gritando e pulando ela se afastou, e eu fiquei ali, chocada e incrédula, até que minha mãe tocou o meu ombro, ela estava sorrindo, acho que a deixei muito orgulhosa, afinal eu consegui ter conversa, mesmo que bem estranha, com Ludimila:

- Adorei aquela dança, você conhecia já aquele passo?

- Mãaaaaeee...

- É brincadeira, vamos entrar, afinal temos um almoço para preparar.

-

Ludimila foi mais pontual do que eu imaginava, ela chegou exatamente às treze horas, ela estava vestida de forma simples, um jeans manchado e uma camiseta branca, os cabelos foram presos num rabo de cavalo, mas ainda sim exibia seu melhor sorriso.

Eu a recepcionei da melhor forma que pude, mas ainda sim ela me surpreendeu com um forte abraço e um beijo estralado no rosto:

- Ai Elise, não acredito que isso esteja acontecendo.

- Eu que não acredito no que você acabou de fazer.

- O que eu fiz?

- Me saudou dessa forma tão...

Que palavra poderia usar para aquele gesto? Nada me vinha na cabeça.

- Carinhosa.

- Exato. Por que você me trata assim?

- Porque eu sempre gostei de você.

Como alguém que eu rejeitei tanto poderia nutri um sentimento tão forte assim por mim? Senti um nó se formando na garganta, mas o engoli, e aquilo doeu. Senti tudo de ruim que um dia cheguei a falar de Ludimila, e posso garantir, não foi algo fácil de digerir, por fim sorri, mas nada forçado foi algo espontâneo e sincero.

Fomos ate a sala de jantar e no pequeno percurso Ludimila foi apontando correções que poderia fazer a casa para me adaptar ao meu novo estado:

- Esse espaço esta muito apertado, você deveria modular seus móveis assim ganharia mais espaço para você poder circular melhor.

- Mas estou num estado passageiro, eu sei que vou voltar a andar logo.

- Mesmo assim, tantos móveis deixam a sua casa escura.

Ri de Ludimila, realmente ela não entendia nada de moda, mas isso não a impediu de continuar a pontuar suas observações:

- Essa parede deveria estar pintada de outra cor, talvez um salmão ficaria ótimo. E esse quadro? Gente que pintura estranha, eu colocaria um quarto de flores ou um papel de parede mais animado.

- Minha nossa você mudaria toda muda casa.

- Desculpa, mas eu não resisto a ver uma casa tão linda sendo mal aproveitada.

Ignorei aquele comentário afinal eu contratei o melhor dos designes para decorar minha casa. Ao entrarmos na sala de jantar me deslumbrei com a mesa servida, literalmente minha mãe não poupou esforços, havia arroz a grega, salada de grão de bico com bacalhau, uma enorme travessa com várias folhas de saladas, salmão grelhado e filé de Frango a parmegiana. Tudo muito bem colocado e quente, o cheiro inundou minhas narinas que cheguei a ficar com água na boca, minha mãe surgiu na entrada da sala de jantar sorrindo e disse:

- Espero que gostem meninas.

- Mãe esta tudo tão lindo.

- Fiz especialmente para você minha filha, bom almoço queridas.

Olhei para tudo aquilo, então sorri para Ludimila que disse:

- Sua mãe não vai comer com a gente?

- Ela disse que prefere almoçar na cozinha.

- Ah por favor chame-a para partilhamos desse delicioso almoço feito com tanto amor e carinho.

Realmente, se alguém merecia se deliciar com tudo aquilo, era obvio que seria a dona Luluzinha que surgiu antes mesmo de eu chama-la:

- Se me querem aqui eu fico.

Minha mãe não seria minha mãe se estivesse ouvindo atrás da porta.

-

Nunca pensei que Ludimila fosse tão legal, descobri que ela trabalha numa ONG que ajuda pessoas com deficiências físicas, fora que ela é formada em engenharia civil, e se especializou em designs interiores, ta ai o motivo dela sempre pentelhar a decoração da casa dos outros. Foi um momento super agradável ao lado dela, fora que Ludimila era muito divertida, adorava contar piadas, e sempre sorrindo.

Por um momento me senti mal por ter sido tão dura com ela, nunca imaginei vê-la do jeito que a vejo hoje, uma mulher determinada, centrada e muito, mas muito divertida, ao fim do almoço, Ludimila se levantou da mesa segurou minha mão e da mão de minha mãe, encarou nos duas e disse:

- Que esse momento fique eternizado em nossa mente para sempre, e lembre-se não importa a dificuldade, tudo pode ser resolvido com um sorriso, afinal após a chuva forte sempre surge um lindo arco-íris.

- Que linda frase. – Deu para nota que minha mãe se emocionou ao dizer isso, ela mesma sabia o quanto era viver dias chuvosos e pedregosos.

Não sei por que, mas essa frase foi familiar, da época e que vivíamos sobre o mesmo teto que aquele homem... Peraí essa frase, eu me lembro:

- Ludimila onde você ouviu essa frase?

- Minha avó que sempre me dizia essa frase, eu cresci ouvindo isso dela, até no seu ultimo suspiro ela estava sorrindo.

- Da sua avó? 

- É por que a pergunta Elise?

- Essa sua frase me fez lembrar de um passado triste.

- Filha você se refere à dona Helena.

Helena, esse era o nome na nossa protetora, sim ela sempre dizia essa frase toda vez que nos ajudava, agora eu me lembro, ela nunca deixou de nos ajudar, e sempre estava sorrindo, um sorriso alegre, cativante, brilhante...

- O nome da minha avó era Helena.

Aquilo não poderia ser possível, será que Ludimila era a neta da mesma Helena que um dia cuidou da minha família? 

Fico muda, pois não sabia o que dizer, até que minha mãe abaixa a cabeça e começa a chorar, sim, era verdade Ludimila só poderia ser a neta da dona Helena, a nossa vizinha sorridente e afetuosa que sempre nos ajudou.

Eu não consigo aguentar, caio no choro também, é quando Ludimila ainda segurando as nossas mãos diz:

- Demoraram tanto tempo para me reconhecer né.

- Mas Ludi, eu não sabia que você era a neta de Helena, ela sempre nos ajudou, sempre esteve presente nos nossos dias mais sofridos, eu... Queria tanto agradecê-la.

Minha mãe não consegue mais falar, ela é tomada por lagrimas que a deixam em prantos, apesar da felicidade de conhecermos a neta de dona Helena, as lembranças de dias amargos a tomavam, era triste ver minha mãe daquele jeito, eu queria ampara-la, mas não tinha forças, pois também estava revivendo toda dor que sentia quando criança, involuntariamente começo a tremer, até que novamente Ludimila exibi o seu mais belo sorriso e diz:

- A dor ainda habita em vocês, mas eu estou aqui, hoje como uma mensageira de Deus, se foi da vontade Dele que nos reencontra-se, então será da vontade dele que farei o mesmo trabalho que minha avó um dia fez com vocês, trarei a alegria para a sua vida, se me permitirem eu quero ajuda-las a sorrirem com o coração.

Acho que não precisamos nem dizer uma só palavra, pois o nosso gesto já respondeu por sim só, me aproximei de Ludimila com a cadeira de rodas e a abracei, e pude sentir que ali uma nova e verdadeira amizade nasceu.

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